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ABIFA SUL ENTREVISTA MÁRIO KRUGER |
HÁ QUANTO TEMPO ATUA NA ÁREA?
Há 45 anos. Entretanto, estou envolvido com o assunto fundição há pelo menos 60 anos, pois desde os 7 anos de idade convivia com um tio que tinha uma pequena fundição de ferro fundido cinzento. Naquela época, toda a moldagem era manual e feita de segunda a sexta-feira. No período da tarde e a noite de sexta-feira, os moldes eram fundidos e no sábado pela manhã desmoldados. O forno era cubilô e naquela época tinha muita curiosidade sobre o assunto. Questionava ao meu tio como se pode jogar ferro na parte superior do forno e, embaixo, ele sair líquido. À sua maneira, ele tentava me explicar o que acontecia e porque o ferro se tornava líquido.
O ato de fundir o ferro e ele jorrando na bica do cubilô, os respingos que caíam no chão, as faíscas que tudo isto formava especialmente à noite, parecia para mim uma das coisas mais bonitas do mundo. Era como se estivesse diante de uma linda noite de céu estrelado... De tanto ver esta cena, de participar e de tentar ajudar meu tio, encontrei ali meu destino. Quando crescesse, queria ser fundidor.
Esta foi a razão que me estimulou em 1960 a conhecer a Escola Técnica Tupy, criada pela Fundição Tupy, fazendo parte da segunda turma de formandos. Tive o privilégio de ser o primeiro técnico na ETT a exercer cargo de chefia na Fundição Tupy, pois apenas 4 alunos se formaram antes da nossa turma. Como prêmio por serem os pioneiros, eles receberam bolsas de estudos da Tupy para fazer o curso de engenharia. Em maio de 1963, fui promovido a mestre de fusão e, desde então, exerci e exerço os mais diversos cargos em nível de chefia ou de diretoria. Em dezembro de 1996, na Festa do Fundidor que a Escola Técnica Tupy realiza todos os anos em homenagem a Santa Bárbara, padroeira da categoria, fui escolhido como ‘Profissional do Ano' e recebi uma homenagem que me deixa muito honrado diante do reconhecimento dos colegas e do setor. Esta distinção me trouxe profunda emoção, pois havia conseguido tornar realidade aquela fantasia de adolescente, de me tornar um fundidor.
QUAL SUA FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Além do curso realizado na Escola Técnica Tupy, onde fiz parte da segunda turma do curso de Técnico de Metalurgia, desde 1965, sou professor para o ensino médio nas especialidades de Termotécnica, Metalurgia e metalografia. Também sou bacharel em administração de empresas pela antiga Furj, hoje Universidade de Joinville, com pós-graduação em finanças.
COMO O SENHOR COMEÇOU NA FUNDIÇÃO?
Trabalhando em todas as funções existentes em uma fundição. Passei pela macharia, moldagem, fusão, acabamento, modelação, controle da qualidade, laboratórios, manutenção e montagens de equipamentos novos, sendo que nesta condição participei da montagem da fundição, denominada FUND-C e do primeiro forno à indução da Tupy, em 1963. Vale aqui lembrar que esse empreendimento seguiu o conceito do idealizador da ETT, Hans Dieter Schmidt, que defendia que para alguém ser um bom técnico era preciso conhecer todas as funções na prática e assim trabalhamos meio expediente na produção e meio expediente na formação acadêmica e técnica.
QUE ATIVIDADES DESENVOLVE ATUALMENTE?
Considerando um pequeno período de consultoria, estou há 30 anos na Schulz S/A, atualmente exerço a função de diretor de projetos especiais e também sou membro do Conselho de Administração da empresa.
QUE OUTRAS ATIVIDADES EXERCE?
Atividades extra empresa que exerço e exerci e que muito me orgulham:
- De 1968 à 1974 prestei assessoria, com autorização da Fundição Tupy, a Weg Motores no setor dede fundição, onde a tarefa principal foi projetar e implantar a Fundição nº 1, ainda
hoje em funcionamento.
- De 1979 à 1981 novamente assessoria, com autorização da Metalúrgica Schulz, a Weg onde a tarefa principal foi participar no projeto de implantação de nova fundição da Weg,
denominada nº 2, ainda hoje em funcionamento.
- De 1984 à 2004 – Diretor da SOCIESC - Sociedade Educacional de Santa Catarina, entidade que tem como função gerir os destinos da E.T.T. - Escola Técnica Tupy.
- Desde 1986 eleito Diretor da Regional PR e SC da ABIFA - Associação Brasileira de Fundição.
- Desde 1986 Conselheiro da ACIJ - Associação Comercial e industrial de Joinville.
- De 1988 à 1993 Diretor da Fundação Cultural de Joinville.
- Desde 1985 participo da Comissão de negociação por parte do Sindicato Patronal.
- Desde 1995 participo como Diretor do Sindicato Patronal.
- Desde 1999 – Conselheiro da ABM - Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais.
- De 2000 até maio/04 – Vice-Presidente da CCJ - Comitê de Gerenciamento da Bacia do Rio Cubatão Norte.
- De 2002 até agosto/2005 – Presidente do SINDIMET – Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico de Joinville.
- Desde 2004- Representante da ACIJ junto ao CCJ - Comitê de Gerenciamento da Bacia
do Rio Cubatão Norte.
Desde 2004 – Membro do Conselho Fiscal da SOCIESC - Sociedade Educacional de Santa
Catarina.
- De Maio/2004 a junho/2005 – Presidente do CONSEP - Conselho das Entidades Patronais.
- Desde Agosto/2005 – Diretor Secretário do SINDIMET - Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico de Joinville.
Além destas atividades, desde 1993 tenho tido a honra de integrar a diretoria da Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, entidade mantenedora do Corpo de Bombeiros Voluntários de nossa cidade. Como vice-presidente, tive a oportunidade de assumir interinamente a presidência da entidade, no período de 1996 a 1997. Em 2004, novamente assumi a presidência desta corporação, cargo que ocupo desde então.
Sem dúvida, essa participação no Corpo de Bombeiros tem sido gratificante, pois se trata da corporação mais antiga do Brasil, no seu gênero, reunindo há 114 anos homens e mulheres que se dedicam a um trabalho de solidariedade ao próximo. Esta trajetória teve início ainda nos primeiros anos de colonização de Joinville, com a experiência trazida pelos imigrantes alemães, suíços e noruegueses, principalmente, pois o modelo voluntário sempre foi colocado em prática nos países europeus. É sem dúvida, o modelo mais eficiente, mais racional e mais econômico para o município e para o estado.
QUAIS AS PRINCIPAIS MUDANÇAS DO SETOR SENTIDAS PELO SENHOR DESDE QUE INICIOU SUAS ATIVIDADES?
As mudanças foram extraordinárias, pois naquela época, especialmente na nossa região, a maioria das fundições era de pequeno porte e tudo era feito manualmente, desde a macharia, moldagem e vazamento (fundição em si). A moldagem, além de manual, também se usava, na maioria dos casos, areia natural. Os moldes feitos nestas condições, necessitavam de um tratamento pós moldagem todo especial a fim de não causar problemas na hora de fundir.
Em conseqüência disto tudo, a produtividade das fundições, naquela época, era baixíssima. Hoje, graças ao desenvolvimento de novas tecnologias em todos os setores de uma fundição, onde praticamente tudo era feito manualmente se passou para a mecanização e em muitos casos automação. Conseqüentemente, esse avanço resultou em melhorias na produtividade das fundições brasileiras, tornando-as competentes em nível global.
Qual foi a grande novidade lançada pelo setor durante o tempo em que o senhor atua e que tenha contribuído para o desenvolvimento do setor ?
Esta pergunta mereceria uma pesquisa mais ampla para ser respondida, mas
Acredito não ser este o objetivo da pergunta. E assim, considerando que tive o privilégio de vivenciar a grande maioria das grandes novidades lançadas pelo setor, pois elas aconteceram praticamente nos últimos 50/60 anos, difícil é mencionar apenas uma. Desta forma relaciono algumas que considero relevantes e importantes, sem considerar a cronologia exata dos acontecimentos.
1º - Faço referência inicial ao Processo Croning “Shell Molding” e fabricação de machos em Shell. Desenvolvido pelo alemão Johannes Croning e foi utilizado intensamente durante a 2ª guerra mundial, na produção de material bélico para as tropas do ‘Eixo' (alemães e seus aliados). Logo após o término da 2ª guerra o processo foi descoberto e tornado público. E, durante muito tempo este processo era um diferencial para a produção de peças com paredes mais finas e tolerância dimensional mais estreita.
- Consolidação do uso de areias sintéticas, a base de bentonita, nas moldagens.
- Início do processo CO2 (silicato de sódio + CO2), para produção de cascas (moldagem) e machos.
- Início do processo: cura a frio, também para a produção de moldes e machos.
- Início das pesquisas em moldagem de alta pressão, inicialmente aumentando a pressão do ar nas máquinas tipo: Jolt-Squeezer e em seguida com prensagem hidráulica e impacto de ar.
2º - Consolidação da produção de nodular, pois inicialmente os usuários de fundidos não confiavam no nodular, pelo fato do tratamento de nodularização ser feito fora do forno e naopinião dos usuários não apresentar segurança quanto a repetibilidade do processo. Entretanto, após os anos 50, a indústria automobilística passou a confiar no material (nodular) e milhares de peças migraram do ferro maleável branco e preto e em especial do aço fundido e forjado, para o nodular. Apresentando vantagem significativas em relação a custos e em especial se comparado ao aço, além dos custos, ganhos extraordinários em produtividade na usinagem das peças.
- Novos processos de moldagem, como: Lost-foam e a Vácuo (V-Process), também muito contribuiram para produção de determinadas peças, com características específicas. Mas ainda falta uma consolidação, no meu entender, destes processos. E neste momento ao falar dos novos processos de moldagem, ressaltar que a velha moldagem em areia a base de sílica e bentonita ainda é imbatível, sob o ponto de vista de: produtividade e custos, naturalmente considerando algumas limitações quanto a qualidade e tolerâncias dimensionais.
- Novas tecnologias em fornos, especialmente os à indução, para torna-los mais eficientes sob o ponto de vista energético.
- Consolidação do processo “Cold Box” na produção de machos.
- Consolidação das moldagens em areia verde:
Sem caixas e com partição vertical;
Linhas de moldagens automáticas, com caixas e partição horizontal.
Sem dúvida alguma, estes sistemas de moldagem são os responsáveis maiores pelos ganhos de produtividade nas fundições.
- Uso crescente de computadores nas fundições, tanto para o gerenciamento e planejamento da produção, bem como softwares específicos, como por exemplo na simulação da solidificação do ferro, contribuindo em muito na definição do sistema de alimentação.
- Tendências futuras:
a) A necessidade da indústria automobilística de produzir veículos mais leves terá como conseqüência a migração de peças, atualmente produzidas em: ferro cinzento, nodular e aço, para os não ferrosos, especialmente em ligas a base de alumínio e magnésio.
b) Considerando que a atividade de fundição é intensiva em mão de obra, o difícil, para não dizer penosa, cada vez mais há necessidade de: ROBOTIZAR E AUTOMATIZAR esta atividade.
c) Maior atenção ao meio ambiente. Por questões de custopara dispor os resíduos de fundição em aterros próprios e para evitar que os recursos naturais sejam exauridos, as fundições terão que buscar soluções como:
- Redução da geração de resíduos
- Regeneração e recuperação de resíduos
- Reutilização de resíduos
- Co-processamento dos resíduos, como por exemplo: produção de cimento
- Uso de resíduos de areia, devidamente classificadas como matéria prima, na produção de cerâmica vermelha, artefatos de concreto, argamassas para construção civil e asfalto, para ficar apenas nestes exemplos. E aproveitar para mencionar que dezenas e dezenas de estudos já realizados mostram viabilidade técnica e econômica. Entretanto, inexplicavelmente não se consegue autorização por parte dos órgãos ambientais responsáveis, quando nos paises desenvolvidos tal prática é comum.
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